Durante décadas, a economia mundial do vinho assentou numa convicção quase inquestionável: o consumo continuaria a crescer. Esse pressuposto moldou políticas públicas, orientou investimentos, justificou a modernização tecnológica das empresas, incentivou a reconversão das vinhas e alimentou a expansão das exportações para novos mercados. Hoje esta premissa deixou de ser válida.

A questão central que se coloca à vitivinicultura mundial já não é a de saber quanto vinho consegue produzir. A verdadeira questão é saber como pode adaptar-se a um mundo onde os consumidores mudaram mais depressa do que os produtores. É esta transformação silenciosa que explica grande parte das dificuldades e dos desafios que hoje atravessam o setor.

Durante muito tempo, a lógica económica foi relativamente simples. A Europa produzia, consumia e exportava vinho. Nos países mediterrânicos, o vinho fazia/faz parte da alimentação diária, constituía um elemento identitário das comunidades rurais e representava uma importante fonte de rendimento agrícola.

Paralelamente, a abertura dos mercados internacionais, a emergência de novos países consumidores e a globalização alimentavam a expectativa de que a procura absorveria qualquer aumento da produção. Foi neste contexto que a vitivinicultura conheceu uma extraordinária modernização.

As empresas tornaram-se mais eficientes, a mecanização reduziu custos, a investigação melhorou as castas e os processos de vinificação, a qualidade média aumentou de forma notável e a internacionalização abriu oportunidades impensáveis poucas décadas antes. Nada disto foi um erro. Pelo contrário. Era a resposta racional a um mercado em expansão.

O problema surgiu quando a procura deixou de acompanhar essa evolução. Segundo os dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o consumo mundial atingiu, em 2025, o nível mais baixo desde o início da década de 1960. Mais importante do que o valor absoluto é aquilo que ele representa. Pela primeira vez em várias gerações, a redução do consumo não resulta apenas de uma crise económica ou de uma má colheita. Resulta de alterações estruturais na forma como as sociedades se relacionam com o álcool, com a alimentação e com o tempo livre.

As gerações mais jovens bebem menos álcool do que os seus pais. A refeição familiar perdeu centralidade em muitas sociedades. As preocupações com a saúde pública influenciam escolhas individuais e políticas governamentais.

A concorrência de outras bebidas nunca foi tão intensa. O vinho deixou de ser um hábito quotidiano para passar a ser, cada vez mais, um consumo de ocasião, associado à gastronomia, ao lazer, ao turismo e à experiência. Esta mudança cultural tem profundas consequências económicas. Durante décadas, a rentabilidade das empresas vitivinícolas dependia, em larga medida, do aumento do volume vendido. Hoje, a criação de valor tornou-se mais importante do que a quantidade produzida.

É por isso que conceitos como “premiumização”, sustentabilidade, autenticidade, enoturismo ou diferenciação territorial deixaram de ser instrumentos de marketing para passarem a constituir fatores centrais de competitividade. Também a União Europeia reconheceu esta mudança. As sucessivas reformas da Política Agrícola Comum e da Organização Comum do Mercado do vinho mostram uma clara evolução estratégica.

Se no passado a prioridade consistia em aumentar a produtividade e garantir o abastecimento alimentar, hoje o objetivo é assegurar o equilíbrio entre oferta e procura, promover a adaptação às alterações climáticas, apoiar a inovação e reforçar a criação de valor nas regiões produtoras. Esta evolução não significa que a Europa tenha abandonado a produção. Significa que passou a privilegiar uma produção economicamente sustentável.

Curiosamente, esta situação encontra um interessante paralelo na História Económica. Os historiadores utilizam a expressão produção marginal para descrever a expansão agrícola ocorrida entre os séculos XIII e XIV, quando o crescimento demográfico levou ao aproveitamento de terras progressivamente menos férteis. Enquanto a população aumentou, essa estratégia revelou-se eficaz. Mas quando a procura diminuiu, muitas dessas explorações deixaram de ser economicamente viáveis.

Naturalmente, seria abusivo estabelecer uma equivalência direta entre a agricultura medieval e a vitivinicultura contemporânea. No entanto, a analogia ajuda a compreender um princípio económico essencial: qualquer sistema produtivo encontra limites quando a expansão da capacidade instalada deixa de ser acompanhada por um crescimento equivalente da procura.

A vitivinicultura mundial enfrenta hoje esse dilema. Não porque produza necessariamente demasiado vinho em todos os anos ou em todas as regiões, mas porque foi organizada para responder a um mercado cuja dinâmica mudou profundamente. A pandemia de Covid-19 tornou esta realidade ainda mais evidente. O encerramento da restauração, do turismo e do canal Horeca provocou um choque sem precedentes. Mas seria errado considerar a pandemia como a causa da crise atual. Na verdade, funcionou sobretudo como acelerador de tendências que já estavam em curso: digitalização das vendas, valorização do consumo doméstico, crescimento do comércio eletrónico, maior atenção à saúde e procura de produtos diferenciados.

Ao mesmo tempo, o mapa mundial do consumo tornou-se mais complexo.

Os países nórdicos consolidaram-se como mercados sofisticados, exigentes em matéria de sustentabilidade e certificação ambiental. Os Estados Unidos continuam a liderar em valor, embora com um consumo cada vez mais segmentado. O Japão e a Coreia do Sul reforçaram a ligação entre vinho e gastronomia.

Em África, mercados como Angola, Costa do Marfim, Quénia ou Nigéria revelam potencial associado ao crescimento urbano e ao aparecimento de novas classes médias. Nenhum destes mercados substituirá, por si só, o consumo tradicional europeu.

Em conjunto, porém, ilustram uma mudança fundamental: o futuro do vinho dependerá menos de grandes mercados homogéneos e mais da capacidade de responder a consumidores muito diferentes entre si. Neste contexto, Portugal ocupa uma posição particularmente interessante. Continua entre os países com maior consumo per capita do mundo, beneficia de uma forte associação entre vinho, gastronomia e turismo e possui um património vitivinícola singular, assente na diversidade de castas autóctones e de regiões demarcadas.

Contudo, também enfrentará as mesmas pressões demográficas, ambientais e culturais que já transformam os restantes mercados europeus. O desafio consistirá em transformar essas características distintivas numa vantagem competitiva duradoura. Talvez seja esta a principal conclusão que importa retirar. A atual transformação da economia mundial do vinho não representa o declínio de um setor milenar. Representa o fim de um modelo de crescimento baseado na ideia de que bastaria produzir mais para vender mais. Essa época terminou.

O futuro pertencerá aos produtores que compreenderem que o valor de uma garrafa dependerá cada vez menos do número de litros produzidos e cada vez mais da sua capacidade para responder às exigências de consumidores informados, preocupados com a sustentabilidade, atentos à origem dos produtos e interessados nas histórias que esses produtos transportam.

A história do vinho sempre foi uma história de adaptação. Sobreviveu à filoxera, às guerras, às crises económicas, às alterações tecnológicas e às mudanças sociais. A transformação que hoje atravessa poderá revelar-se uma das mais profundas desde a criação da Política Agrícola Comum. Não porque o mundo tenha deixado de apreciar vinho, mas porque mudou profundamente a forma como o consome, o valoriza e o integra no seu quotidiano