O setor vitivinícola mundial entrou numa nova fase da sua evolução económica. Depois de várias décadas marcadas pela expansão da produção, pela internacionalização do comércio e pelo crescimento de novos mercados consumidores, os sinais apontam agora para um desequilíbrio estrutural entre a oferta e a procura. O problema deixou de ser conjuntural: tornou-se um desafio de natureza económica, demográfica e social.

Um estudo recentemente desenvolvido pelo Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em colaboração com investigadores da Oles Honchar Dnipro National University e da Odesa Polytechnic National University, conclui que, entre 2000 e 2023, o mercado mundial acumulou um excedente de aproximadamente 717 milhões de hectolitros, volume equivalente a mais de três anos do consumo mundial atual. Os autores demonstram que a quebra da procura deixou de ser um fenómeno episódico e passou a constituir uma tendência estrutural do mercado internacional.

Os números ajudam a compreender a dimensão do problema. Entre 2018 e 2023, o consumo mundial de vinho diminuiu, em média, 1,75% por ano, enquanto a produção recuou apenas 0,3% anuais. Em termos económicos, esta diferença significa que o setor continuou a produzir acima da capacidade de absorção dos mercados, originando um aumento significativo dos stocks nas adegas dos principais países produtores.

Esta realidade confirma igualmente as tendências identificadas pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). O consumo mundial situa-se atualmente em torno dos 214 milhões de hectolitros, o nível mais baixo desde o início da década de 1960. Paralelamente, embora a produção tenha diminuído devido aos efeitos das alterações climáticas, continua superior às necessidades do mercado, sobretudo quando se consideram os elevados volumes de vinho armazenados ao longo dos últimos anos.

A Europa continua a dominar a produção mundial

A União Europeia mantém uma posição absolutamente dominante na vitivinicultura internacional. Cerca de 60% do vinho produzido no mundo tem origem em Estados-membros da União Europeia, que concentram igualmente aproximadamente 45% da área mundial de vinha.

França, Itália e Espanha continuam a ocupar, alternadamente, os três primeiros lugares da produção mundial, representando, em conjunto, mais de metade da produção europeia. Contudo, estes países enfrentam atualmente um paradoxo económico: produzem vinhos de elevado prestígio internacional, mas assistem simultaneamente à redução do consumo interno e ao abrandamento das exportações.

As alterações climáticas vieram agravar esta situação. As vindimas mais curtas registadas em 2023 e 2024 demonstraram que fenómenos extremos, como secas prolongadas, ondas de calor, geadas primaveris ou episódios de granizo, condicionam cada vez mais o potencial produtivo europeu. Ainda assim, a redução da produção não foi suficiente para eliminar os elevados excedentes acumulados ao longo da última década.

A resposta política começou já a surgir. França aprovou programas de arranque voluntário de milhares de hectares de vinha, procurando reduzir o potencial produtivo e restabelecer o equilíbrio do mercado. Espanha e Itália estudam igualmente mecanismos de reconversão e gestão da oferta, privilegiando produções de maior valor acrescentado em detrimento do crescimento em volume.

A mudança dos hábitos de consumo

O consumo mundial de vinho está a alterar-se profundamente. Na Europa Ocidental verifica-se uma redução consistente do consumo per capita, resultado de vários fatores: envelhecimento demográfico, alterações dos estilos de vida, maior preocupação com a saúde, campanhas de redução do consumo de álcool e crescente preferência das gerações mais jovens por outras bebidas.

O estudo do ISMT recorda que, em 1960, o vinho representava mais de 30% do consumo mundial de bebidas alcoólicas, enquanto atualmente esse valor ronda apenas 12,5%. Esta alteração traduz uma transformação cultural que afeta praticamente todos os mercados tradicionais.

Durante muitos anos acreditou-se que os mercados emergentes compensariam esta evolução. A China era apontada como o grande motor do crescimento internacional. No entanto, essa expectativa revelou-se excessivamente otimista.

Entre 2017 e 2023, o consumo chinês caiu de 19,3 para apenas 6,8 milhões de hectolitros, refletindo a dificuldade em consolidar hábitos regulares de consumo num país onde o vinho representa apenas uma reduzida fração do consumo total de bebidas alcoólicas. Os autores concluem mesmo que, ainda que a China tivesse mantido as taxas de crescimento observadas entre 2005 e 2017, dificilmente conseguiria inverter a tendência global de redução da procura.

Um comércio internacional excessivamente concentrado

Outra conclusão relevante do estudo prende-se com a elevada concentração geográfica da procura internacional. Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha representam uma parte substancial das importações mundiais, concentrando aproximadamente 66% do volume e 68% do valor financeiro do comércio internacional de vinho. Esta dependência torna particularmente vulneráveis os países exportadores, cuja sustentabilidade económica depende cada vez mais da evolução destes mercados. Qualquer desaceleração do consumo nestes destinos repercute-se rapidamente na formação de stocks, na pressão sobre os preços e na rentabilidade dos produtores.

Portugal entre os produtores mais expostos

Portugal ocupa regularmente o grupo dos dez maiores produtores mundiais de vinho, com uma produção anual que oscila normalmente entre 6 e 8 milhões de hectolitros, dependendo das condições climatéricas de cada campanha. O país possui aproximadamente 190 mil hectares de vinha, distribuídos por mais de três centenas de castas autóctones, uma das maiores diversidades genéticas do mundo, constituindo um importante fator diferenciador da oferta nacional.

O setor vitivinícola assume igualmente um peso significativo na economia portuguesa. As exportações ultrapassam atualmente 900 milhões de euros anuais, aproximando-se frequentemente da fasquia dos mil milhões de euros, tendo como principais destinos França, Estados Unidos, Brasil, Reino Unido, Canadá e Países Baixos.Esta forte vocação exportadora constitui simultaneamente uma vantagem competitiva e um fator de risco.

O mercado interno, embora apresente um dos mais elevados consumos per capita do mundo, não consegue absorver a produção nacional. Consequentemente, mais de metade do vinho produzido em Portugal depende diretamente da evolução dos mercados externos.

É precisamente neste contexto que o estudo identifica Portugal como um dos países produtores mais expostos ao atual abrandamento da procura internacional. Os países produtores concentram cerca de 78% da produção mundial, mas representam apenas 40% do consumo global, obrigando-os a disputar mercados externos cada vez mais competitivos.

O futuro passa pela criação de valor

O principal ensinamento que resulta da atual conjuntura é claro: competir apenas pelo volume deixou de ser uma estratégia sustentável.

Num mercado onde a procura diminui e o consumidor se torna mais seletivo, a diferenciação passa a assumir um papel determinante. A valorização das denominações de origem, a inovação enológica, a sustentabilidade ambiental, a certificação, o enoturismo, a digitalização da comercialização e a construção de marcas fortes serão fatores decisivos para manter a rentabilidade do setor.

Portugal apresenta vantagens competitivas importantes neste novo contexto. A diversidade de castas, a riqueza dos terroirs, a notoriedade crescente dos vinhos portugueses e a capacidade de produzir vinhos de elevada qualidade em diferentes segmentos de preço permitem ao país competir sobretudo através do valor acrescentado e não exclusivamente pelo preço.

O estudo do ISMT deixa uma mensagem particularmente relevante para todo o setor: o principal limite ao crescimento deixou de estar nas tarifas aduaneiras ou nas barreiras comerciais. O verdadeiro constrangimento encontra-se hoje na própria evolução da procura mundial.

Num mercado mais pequeno, mais competitivo e mais exigente, vão sobrebiver, sobretudo, os produtores capazes de diferenciar os seus vinhos, criar marcas reconhecidas e responder às novas preferências dos consumidores. O desafio do vinho no século XXI já não consiste em produzir mais. Consiste, acima de tudo, em produzir melhor, comunicar melhor e gerar maior valor económico por cada garrafa colocada no mercado.