Faleceu Carlos Raposo, enólogo e produtor do projeto Vinhos Imperfeitos, uma das figuras mais singulares e respeitadas da nova geração do setor vitivinícola português. Com uma partida precoce que deixa o mundo do vinho em choque, Raposo será recordado não apenas pela excelência técnica, mas pela busca incessante pela alma de cada "terroir".

O seu percurso foi marcado por uma solidez académica invulgar. Carlos Raposo compreendeu cedo que para dominar a arte da "imperfeição" era necessário um conhecimento científico profundo. Formou-se na Escola Superior Agrária de Viseu, mas a sua sede de conhecimento levou-o além-fronteiras. Frequentou a prestigiada Universidade de Bordéus, onde obteve o Diploma Nacional de Enólogo, e prosseguiu os seus estudos na Universidade de Montpellier, consolidando uma base técnica de elite que unia a tradição francesa à inovação contemporânea.

Esta bagagem académica permitiu-lhe estagiar em regiões míticas como Bordéus, Borgonha, Vale do Rhône e até na Austrália. No entanto, foi a sua ligação a Dirk Niepoort, onde trabalhou durante vários anos, que o projetou definitivamente. A sua capacidade de interpretar as vinhas velhas e de elevar a frescura e a elegância dos vinhos do Douro e do Dão tornou-se a sua assinatura.

Ao fundar os Vinhos Imperfeitos, Carlos Raposo quis desafiar o conceito de perfeição comercial. O nome do projeto era uma ode à autenticidade: para ele, a "imperfeição" era a expressão mais pura da natureza e da intervenção mínima. Os seus vinhos eram objetos de culto, caracterizados por uma precisão técnica que só alguém com o seu currículo académico e experiência internacional conseguiria alcançar.

O setor perde um técnico de rigor absoluto, um estudioso apaixonado e um homem que, apesar do seu percurso académico brilhante nas melhores escolas do mundo, nunca perdeu a humildade de aprender com a vinha. Carlos Raposo deixa um legado de vinhos que, na sua "imperfeição" assumida, roçavam o sublime.